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Full text of "Memoria sobre a formacʹao natural das cores"

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— 


MEMORIA 

SOBRE  A 

FORMA^ÁO  NATURAL 

DAS 

CORES. 


DIOGO     DE    CARVALHO    E  SAMPAYO. 


MADRID. 

NA  OFFICINA  TYPOGRAPHICA 
DA  VIUVA  DE  IBARRA. 


COM   AS   UCENfAS   KECESS ARIAS. 

MDCCLXXXXI. 


N'ao  ha  letras  que  cheguem  a  poder  dizer  os  mila- 
gres  que  pode m  as  colores,  e  agrande  forgasua. 

francisco  do  llanda.  Da  Pintura  antigua. 

Liv.I.  Cap.  XXXVII. 


MEMORIA 


SOBRE  A 

FORMA^ÁO  NATURAL 

DAS 

CORES. 

A 

Xa.  presente  memoria  contém  huma  serie  de  ex- 
periencias feitas  na  cámara  escura ,  com  a  luz  re- 
flexa ,  tendo  passado  por  meios  achromaticos ,  ou 
deferentemente  coloridos.  Os  phenomenos  que 
exhibem  estas  novas  experiencias  ,  sao  táo  extraor- 
dinarios ,  e  interessantes ,  que  se  fazem  dignos  da 
maior  considerado  :  porque  estabeleoida  huma 
vez  a  sua  theoria ,  nao  so  resultará  della  a  maior 
luz  á  doutrina  das  cores;  mas  ainda  a  outros 
ramos  das  sciencias  naturaes.  Nao  he  por  ora  o 
meu  finí  entrar  em  huma  táo  larga  discussáo  ,  li- 
mitando-me  so  a  recordar  históricamente  huns 
factos ,  que ,  pela  sua  novidade  ,  e  importancia, 
nao  pódem  deixar  de  ser  summamente  aprecia- 

A  2 


C  »  ] 

dos,  por  todos  os  que  cultiváo  esta  sorte  de  co- 
nhecimentos. 


i  De  algumas  experiencias ,  que  eu  tinha 
feito  anteriormente  com  as  cores  materiaes  da  pintu- 
ra ,  e  das  ideas  que  sobre  ellas  me  occorreráo, 
deduzi  os  nove  principios  ,  que  fazem  a  mate- 
ria do  meu  tratado  das  cores  ,  composto  ,  e 
impresso  em  Malta ,  no  anno  de  1787.  Estes  prin- 
cipios sao  os  que  se  seguem : 


PRIMEIRO     P  RI  NCIP 10. 


3  0  negro  he  huma  cor  positiva  ,  na  qual 
o  vermelho  ,  o  azul ,  o  verde  ,  e  o  amar  ello ,  se 
achao  intimamente  unidos ,  e  em  cuantidades 
quasi  iguaes. 


SEGUNDO  PRINCIPIO. 

4  O  branco  he  huma  cor  igualmente  posi- 
tiva ,  onde  o  vermelho ,  o  azul ,  o  verde  ,  e  o  ama- 
relio  se  achao  extremamente  divididos  ,  ate  o 


[  3  ] 

ponto  de  se fazerem  invisiveis. 


TE  RC  E  I RO  PRINCIPIO. 

5  O  vermelho  e  verde  ,  sao  as  córes  primi- 
tivas ,  e  dominantes  na  Natureza :  e  o  azul ,  c 
amar  ello  ,  nao  sao  que  puras  modijicacoens  des* 
tas  duas. 

QUARTO  PRINCIPIO. 

6  A  cor  Azul  nao  he  primitiva  ,  mas  sim 
gerada  pelas  modijicacoens  ,  que  recebe  a  cor  ver- 
melha  pela  refrac  cao  da  luz ,  ou  mistura  de  ou~> 
tras  substancias. 

QUINTO  PRINCIPIO. 

7  A  cor  Amarella  nao  he  originaria  ,  ou 
primitiva ;  mas  sim  secundaria ,  e  derivada  da 

VERDE. 


[4] 


SEXTO  PRINCIPIO. 

8  O  orqao  sensorio  da  'vista  nada  contri- 
bu?  para  a  formagao  das  cores  ;  as  quaes  sen- 
do  qualidades  secundarias  dos  corpos  ,  existem 
com  elles  ,fora  de  nós  mesmos. 

SEPTIMO    P  RINCIPIO. 

9  A.  diversidade  das  cores  nao  resulta  so 
da  diff érente  contextura  dos  corpos  naturaes ;  pois 
que  sobre  huma  superficie  homogénea  vemos  a  o 
mesmo  tempo  ,  diversas  cores. 

OITAVO  PRINCIPIO. 

10  As  cores  originarias  e  primitivas  ,  e  as 
que  dellas  nascem  e  se  compoem  ,  necessitao  pa- 
ra se  manifestar  e  compór  ,  e  da  luz ,  e  da  di- 
versa contextura  dos  carpos ,  que  as  refringem, 
c  rejiectem. 


NONO  PRINCIPIO. 

11  As  dvas  cores  primitivas  ,  que  residem 
na  luz ,  se  manifestdo  felá  descomposigdo  ,  que 
a  mesma  luz,  padece  urtando  os  corpos  naturaes: 
e  todas  as  outras  cores  ,  de  qualquer  genero  que 
sejdo  ,  resultdo  da  differente  combinando  das  duas 
primitivas  ,  nascida  das  diversas  refracfoens9 
com  que  a  luz  se  modifica  ,  tocando  a  superficie 
dos  corpos. 

1 2  Tinha  feito  tambem  muitas  experiencias, 
e  observacoens ,  com  p  Prisma ;  e  me  pareceu 
que  de  todas  ellas  se  podiáo  deduzir  igualmen- 
te os  nove  principios  ,  que  se  acháo  em  a  no  - 
ta vii.  das  notas  e  illustracoens  ,  que  acom- 
panháo  o  refferido  tratado.  Estes  principios 
sao  os  que  se  seguem: 

P  RI MEIRO  PRINCIPIO. 


1 3    As  cores  se  manifestdo  ,  e  se  formdo, 


por  tneio  da  refracto  da  luz, 


SEGUNDO  PRINCIPIO. 

14  A  luz  que  emana  dos  cor  pos  lucidos  ,  e 
a  que  he  reflectida  dos  opacos  ,  contém  as  mes- 
mas  cores  ,  e  produz  os  mesmos  phenomenos. 

TE  RCE I RO  PRINCIPIO. 

15  A  intensidad  e  da  luz  he  igualmente  des< 
tructiva  das  cores  ,  como  a  densidade  da  sombra. 

Q  U ARTO  PRINCIPIO» 

1 6  He  com  huma  luz  mediana  ,  que  appa* 
recem  ,  e  se  formao  as  cores. 

QUINTO  PRINCIPIO. 

17  As  cores  primitivas  sao  duas  ,  verme- 

ZHO  ,  e  VERDE. 


ÍY3 

SEXTO  PRINCIPIO. 

18  A  cor  Azul  he  derivada  ,  e  nao  primi- 
tiva. 

SEPTIMO  P  RINCIPIO. 

19  A  cor  Amar  ella  he  derivada  ,  e  nao  pri- 
mitiva. 

oitavo  principio. 

20  O  negro  he  huma  cor  positiva  >  e  se 
forma  do  vermelho  e  verde. 

NONO  PRINCIPIO, 

21  O  branco  he  huma  cor  positiva ,  e  nasce 
da  extrema  divisao  das  duas  cores  primitivas, 

VERMELHO  ,  e  VERDE. 

22  As  pro  vas  destes  principios  se  acháo  Ca- 

li 


[8] 

racterizadas  em  a  Prefacáo  do  referido  tratado, 
no  seguinte  modo: 


2  3  Te  reí  a  mayor  satisfagao  de  que  os  ver- 
daderos amadores  das  sciencias  naturaes  ,  achem 
as  minhas  hypotesis  bem  fundadas  :  e  espero 
que  em  huma  sciencia  puramente  natural ,  nao 
exigirao  demonstragoens  geométricas  ;  contentan- 
do-se  da  experiencia  ,  e  de  bem  fundadas  ana- 
logias  ,  que  sao  a  verdadeira  prova  desta  sorte 
de  conhecimentos. 

24  Fiz  depois  outras  experiencias  ,  e  obser- 
v.ac^oens ;  e  no  anno  de  1788.  compíiz  a  disser- 
tacao  sobre  as  cores  primitivas  ,  na  qual  dei 
a  mesma  doutrina  do  tratado  das  cores  ,  mas 
em  melhor  ordem  ,  e  mais  bem  provada :  ajun- 
tando-lhe  tambem  hum  breve  tratado  sobre 

A  COMPOSICAO  ARTIFICIAL  DAS  CORES.  A  DIS- 
SERTA CAO  se  redúz  as  tres  proposicoens  que  se 
seguem: 


[9] 


P  RI  MEIRA  PROPOSIf  AO. 

25  Das  cores  permanentes  ,  que  se  vem  cons- 
tantemente na  superficie  dos  cor  pos  naturaes^ 
so  o  verme lho  ,  e  verde  se  pódem  physic  amenté 
ter  por  simples  ,  e  primitivas. 

SEGUNDA    P  RQ  POSIf  AO. 

26  Das  cores  apparentes  ,  que  por  meio  de 
adaptados  instrumentos  ,  se  vem  por  algum  tem- 
po  nos  perfis  dos  corpos  naturaes  ,  so  o  verme- 
lho  ,  e  verde  se  pódem  physicamente  ter  por 
simples ,  e  primitivas. 

TE  RC  E  IRA  PROPOSIfAO. 

27  Das  cores  apparentes  ,  que  exhibe  a  luz 
colorida  separada  dos  corpos  naturaes  ,  so  e  ver- 
me  lho  y  e  verde  se  pódem  physicamente  ter  por 
simples ,  e  primitivas. 

b  2 


[  ">] 

a8    Na  Introdúcelo  do  breve  tratado  da 

COMPOSJ^AO   ARTIFICIAL    DAS  CORES  ,   SQ  lé  O  Se- 

guinte: 

29  AiNDa  que  no  reino  mineral  domina  a 
cor  vermelha  ,  e  no  vegetal  a  verde,  estas  duas 
cores  tem  tanta  dependencia  huma  da  outr a  pa- 
ra os  seus  fins  ,  como  os  animaes  ,  e  vegetaes  ,  a 
tem  entre  si  para  a  sua  conservado  ;  e  assim 
se  achao  quasi  sempre  unidas  ,  sem  que  jamáis 
se  confunddo.  A  existencia  da  materia  vegetal 
nos  cor  pos  animaes  ,  e  da  animal  nos  corpos  ve- 
getaes  ,  he  huma  des  cubería ,  que  se  deve  as  in- 
contestaveis  experiencias  da  Chymica. 

30  E  mais  abalxo  se  lé  o  que  se  segué  : 

3 1  As  cores  elementares  sao  seis  ,  duas  Pri- 
mitivas ,  e  quatro  derivadas  immediatamente 
das  Primitivas. 

32  As  PRIMITIVAS  Sao  0  VERME LHO  ,  C  VER- 
DE. 


C  »  ] 

33  As  derivadas  immediatamente  das  Pri- 
mitivas sao  o  azul ,  o  amarello  ,  o  branco ,  e  o  negro. 


34  Estas  seis  cores  formao  seis  géneros  en- 
tre si  differ  entes ,  que  abragao  todas  as  espe- 
cies de  cores  ,  que  se  *vem  na  Natureza. 

35  As  cores  especificas  formao- se  da  reci- 
proca mistura  das  cores  genéricas  ,  óv. 

36  As  pro  vas  destas  proposicoens  se  acháo 
caracterizadas  no  seguinte  modo  ,  em  a  Prefa- 
cio da  dissertacao: 

37  A  theoria  das  cores  ,  que  na  Primeira, 
e  Segunda  Parte  daquelle  tratado  ,  se  expoem 
segundo  a  serie  das  experiencias ,  e  fundada  em 
razoens  provaveis;  se  da  agora  em  huma  or- 
dem  natural^  e  se  estabelece  em  razoens ,  que  se 
approximdo  d  demonstragao. 

38  A  synthesis  artificial  das  cores  ,  que  se 
contém  na  Secgao  Segunda  ,  da  Segunda  Parte  do 


[ra] 

mesmo  tratado,  e  em  dezoito  Taboas  coloridas;  se 
exfoem  de  novo  em  hum  breve  tratado  ,  e  se  re- 
duz  a  huma  so  Taboa ,  que  presenta  todas  as 
cores  genéricas  ,  com  as  suas  respectivas  especies. 

39  A  idea  que  eu  tinha  formado  ,  de  que 
o  vermelho  e  verde,  eráo  as  duas  cores  pri- 
mitivas ,  e  de  que  se  achaváo  sempre  juntas ,  sem 
que  jamáis  se  confundissem  ;  me  fez  lancár  máo 
de  hum  phenomeno  ,  que  ,  em  Lamego  ,  e  nos 
fins  de  dezembro  de  1788.  me  offereceu  a  pu- 
ra casualidade.  Entrando  em  hum  quarto  ,  vi  so- 
bre a  parede  diversos  reflexos  verdes  e  ver- 
melhos  :  e  buscando  a  luz  que  os  produzia  ,  achei 
que  era  a  do  sol ,  que  entrava  pela  janella  ,  e  que 
batia  na  parede  opposta  ,  e  no  panno  verde  de 
huma  meza  ;  interpondo-se  huma  cadeira  ,  a  cu- 
ja sombra  conrespondiáo  os  reflexos  coloridos  de 

VERMELHO  ,  e  VERDE. 

40  Retirei  a  cadeira  ,  de  sorte  que  náo  hou- 
vese  corpo  algum  interposto  ,  e  logo  desapare- 
ceráo  as  cores.  Interpúz  huma  bengala  que  le- 


[13  ] 

vava  na  máo  ,  e  se  formarao  logo  as  mesmas  co- 
res :  e  observei  que  a  cor  vermelha  correspon- 
día a  o  reflexo  do  panno  verde  ;  e  a  cor  ver- 
pe  á  parte  da  parede  ,  em  que  batía  o  sol. 

4 1  Levantei  o  panno  da  meza  ,  de  sorte  que 
o  sol  desse  so  na  parede  ;  e  tambem  desapare- 
ceráo  as  cores :  resultando  dos  corpos  interpostos 
huma  mera  sombra  escura.  Fiz  que  o  sol  ba- 
tesse  so  no  panno ,  sem  dar  na  parede  ;  e  igual- 
mente desapareceráo  as  cores  ?  resultando  dos  cor- 
pos  interpostos  a  mesma  sombra  escura  ,  que  pro- 
duzia  a  luz  reflexa  da  parede  branca. 

42  No  fazer  estas  experiencias ,  observei  que 
as  cores  eráo  mais  vivas ,  quando  o  quarto  es- 
lava mais  escuro  ,  e  quando  os  reflexos  eráo  mais 
fortes  que  a  luz  natural ;  e  que  ellas  se  di- 
luiáo  ,  e  chegaváo  mesmo  a  desvanecer-se  ,  quan- 
do a  luz  natural ,  que  se  fazia  entrar  por  ou- 
tras  janellas ,  ou  pela  porta ,  vencia ,  em  for§a ,  a 
dos  reflexos. 


[  14] 

43  Como  a  cor  ,  que  resultava  do  reflexo 
verde  ,  era  a  vermelha  ;  quiz  ver  que  cor  resul- 
tarla de  hum  reflexo  vermelho.  Tirei  outra  vez 
o  panno  verde  da  meza  ,  e  situeime  de  modo, 
que  parte  do  sol ,  que  entrava  no  quarto  ,  ba- 
tesse  na  parede  branca  ,  e  outra  parte  em  hu- 
ma aba  do  meu  vestido ,  que  era  o  uniforme  de 
Malta  ,  de  hum  bello  escaríate  :  e  observando  os 
reflexgs  na  parede,  os  vi  outra  vez  verme- 
lhos  e  verdes  ;  conrespondendo  a  cor  verde  a 
o  reflexo  vermelho  ,  e  a  vermelha  á  luz  da 
parede. 

44  Repetindo  diversas  vezes  esta  observacao, 
cm  differentes  dias ,  e  achando  sempre  os  mes- 
mos  resultados ,  mais  ou  menos  sensiveis ,  segun- 
do os  diversos  gráos  de  intensidade  da  luz  ,  e  forca 
dos  reflexos ;  fuquei  tendo  para  mi :  Que  a  luz  do 
sol  era  hum  liquido  achromatico  com  a  proprieda- 
de ,  como  a  agoa  ,  de  poder  tingir-se  de  todas 
as  cores ;  e  que  neste  liquido  nadaváo  algumas 
partículas  coloridas ,  e  subtilissimas  ,  as  quaes  tln- 
gindo  a  luz  diversamente  por  meio  das  refrac- 


[  '5  1 

§oens  ,  dos  reflexos ,  e  da  inflexao  ,  formaváo  todas 
as  cores ,  que  se  vem  nos  corpos  naturaes ,  e  na 
luz  colorida. 

45  Por  huma  concurrencia  de  diversas  cau- 
sas ,  nao  pude  seguir  logo  estas  experiencias ,  e 
fazellas  na  cámara  escura  ,  onde  os  resultados 
deviáo  ser  mais  claros  ,  e  sensiveis ;  mas  a  sim- 
ples observacao  do  primeiro  phenomeno ,  e  as 
ideas  que  sobre  elle  me  occorreráo  ,  me  fizeráo  es- 
crever  nos  elementos  de  agricultura  ,  compos- 
tos ,  e  impressos  em  Madrid ,  no  anno  de  1790, 
e  179 1  ,  o  que  se  segué  ,  tratando  da  luz  consi  - 
derada como  hum  dos  primeiros  elementos  da  na- 
tureza: 

46  ¿4  LVt ,  tomada  como  elemento  ,  nao  he 
hum  corpo  simples ,  mas  sim  composto  de  prin- 
cipios entre  si  diversos.  Hum  jluido  achromati- 
co  ,  subtilissimo ,  e  diaphano  ,  forma  a  sua  ba- 
se ;  e  huma  materia  colorida  ,  heterogénea  ,  e  opa- 
ca,  nada  continuamente  neste  Jluido. 


c 


C  i«] 

47  Se  na  luz  nio  existís  se  huma  materia 
achromati:a ,  a  intensidade  das  cores  da  luz  ,  se- 
ria sempre  a  mesma ,  em  cada  huma  das  suas 
especies  ;  por  exemplo  ,  o  vermelho  seria  sempre 
da  mesma  forga  ,  sem  pod¿r  diluirse  para  mais 
claro  ,  nem  concentrar- se  para  mais  escuro»  Ora, 
a  experiencia  mostra  que  as  cores  da  luz  se 
diluem  ,  e  se  concentrdo  ,  sem  mudar  em  de  na- 
tureza  ;  segue-se  que  na  mesma  luz  deve  exis- 
tir huma  materia  achromatica  ,  capaz  de  pro- 
duzir  semelhantes  modijicagoens . 

48  He  preciso  tambem  que  a  materia  co- 
lorida da  luz  nao  seja  homogénea  ;  porque  se 
ella  fosse  de  huma  so  natureza  ,  vermelha  por 
exemplo  ,  nao  se  veria  em  todos  os  corpos  mais 
do  que  esta  cor  ,  clara ,  ou  escura  ,  segundo  o 
grao  de  intensidade  ,  ou  de  rarefacto  da  luz. 
Ora  nos  corpos  ve-se  huma  prodigiosa  varieda- 
de  de  cores  diferentes,  nao  so  na  intensidade, 
mas  tambera  na  qualidade  ;  consequent emente  a 
materia  colorida ,  que  nada  em  o  jluido  achro- 
matico  da  luz  ,  nao  he  homogénea ,  mas  sim  de 


diversas  naturezas. 

49  Por  huma  serie  de  novas  e  decisivas  ex- 
periencias ,  feitas  sobre  a  luz  ,  esta  suficiente- 
mente provado  ,  que  a  sua  materia  colorida  he 
de  duas  sortes  ;  huma  capaz  de  excitar  em  nos 
a  sensagdo  da  cor  verme lh a  ,  e  outra  capaz 
de  produzir  a  sensagao  da  cor  verde.  Todas 
as  outras  cores ,  que  se  vem  na  luz  ,  sao  com- 
postas des  tas  duas  ,  e  devem  reputar- se  como 
meros  resultados  da  sua  reciproca  combinagdo^ 
com  a  materia  achromatica ,  em  hum  estado  de 
maior  ou  menor  densidade  ;  por  que  a  luz  tem 
o  poder  de  concentrarse ,  ate  ser  de  hum  bri- 
Ihante  ,  e  forga  insoportavel  a  o  orgao  da  vis- 
tai  e  de  rarefazer-se  ,  ate  deixar  de  ser  sensi- 
vel  a  o  mesmo  orgao ,  e  de  fazernos  visiveis  os 
objectos. 

5  o  E m  fim  f  a  materia  colorida  da  luz  he 
da  sua  natureza  opaca  ;  porque  em  se  combi- 
nando por  meio  de  adaptados  instrumentos ,  ou 
impede  a  livre  passagem  a  os  rayos  achromati- 

C  2 


C  is  ] 

eos  y  ou  nos  cobre  a  superficie  dos  objectos ,  so- 
bre que  se  estende  a  mesma  materia  colorida. 


5 1  Sempre  desejoso  de  averiguar  o  que  re- 
sultaría da  combinacáo  da  cor  vermelha  e  ver- 
de entre  si  ,  e  com  a  luz  ;  e  o  que  tambem  re- 
sultaría de  huma  igual  combinacáo  das  outras 
cores  genéricas ,  e  especificas ;  e  offerecendo-se-me 
hum  momento  de  ociosidade  ,  preparei  huma  cá- 
mara escura  ,  em  Madride,  nos  principios  de  sep- 
tembro  de  1791.  Esta  cámara  tinha  huma  janel- 
la  de  dois  postigos  exposta  a  o  meío  día.  No 
postigo  da  parte  direita  ,  e  a  oito  palmos  do  chao 
risquei  hum  quadrado  de  hum  palmo  ,  do  qual 
dois  ángulos  se  achaváo  verticalmente  situados, 
e  os  outros  na  linha  do  horizonte.  Em  cada 
ángulo  fiz  por  hum  tubo  de  dois  palmos  de  com- 
prido  ,  e  huma  pollegada  de  diámetro  ,  dos  quaes 
ametade  entrava  dentro  da  cámara  ,  e  outra 
ametade  ficava  fora  para  receber  a  luz  do  sol ;  e 
por  hum  joelho  ,  que  tinháo  no  meío ,  se  mo- 
viáo  docememente  ,  e  com  firmeza ,  para  todas  as 
partes  ,  como  os  pequeños  tubos  de  tres,  ou  qua- 


[  19] 

tro  Knhas  de  diámetro ,  com  que  sefazemas  expe« 
riencias  do  prisma.  O  postigo  da  parte  esquerda, 
servia  para  aclarar  a  cámara  ,  quando  era  necessario. 

52  As  primeiras  experiencias  que  fiz  ,  foráo 
com  a  luz  reflexa  de  pedacos  de  seda  e  panno 
de  differentes  cores ;  mas  nao  conrespondendo  os 
resultados  a  o  que  eu  esperava ,  pela  muita  luz 
que  introduziáo  os  tubos ,  e  diluia  os  reflexos, 
preparei  humas  como  objectivas ,  feitas  de  seda  li- 
sa ,  ou  assetinada ,  e  de  fitas  da  mesma  qualida- 
de  ,  e  das  sinco  cores  genéricas ,  vermelho  ,  ver- 
de ,  azul ,  amarello ,  e  branco  ;  as  quaes  objecti- 
vas ,  diminuindo  a  intensidade  da  luz  ,  ou  a  deixa- 
váo  passar  pura ,  e  achromatica  ,  ou  a  tingiáo  me- 
lhor  das  suas  respectivas  cores  :  e  se  mudaváo 
tambem  com  muita  facilidade ,  para  se  fazerem  as 
experiencias. 

J3  A  sinco  palmos  dos  tubos,  e  de  fronte 
dos  mesmos,  situei ,  quasi  verticalmente  ,  hum  car- 
táo  branco  de  seis  palmos  em  quadro  ,  feito  de 
panno  de  linho  ,  e  apparelhado  a  colla  com  al- 


C  ™  ] 

vayade  ;  a  o  qual  se  dava  mais  ou  menos  obli  • 
quidade  ,  por  meio  de  hum  pontalete  com  char- 
neira,  que  o  sustinha  como  huma  estante  ,  e  se 
abria  mais  ou  menos,  como  se  dezejava.  Entre  o 
cartáo  e  os  tubos  ,  pendía  de  hum  braco  arti- 
ficial ,  e  por  hum  cordáo  fino  ,  huma  bola  de  páo, 
de  tres  pollegadas  de  diámetro  ,  que  estava  inv 
movel  quando  se  queria  ,  ou  se  movía  para  os 
lados  ,  e  se  avizinhava  mais  ou  menos  do  car- 
táo ,  e  dos  tubos ,  para  buscar  differentes  luzes, 
ou  reflexos  de  maior ,  ou  menor  intensidade.  Jim 
lugar  da  bola  de  páo,  me  servi  tambem  de 
discos  de  folha  de  flandres ,  de  tres ,  ou  quatro  pol- 
legadas de  diámetro ,  com  hum  pé  de  árame  gros- 
so  ,  de  dois  ou  tres  palmos :  e  para  variar  os  phe- 
nomenos  interpúz ,  algumas  vezes  ,  tres  ou  qua- 
tro pennas  de  escrever  ,  encruzadas  humas  pelas 
outras  :  o  que  dava  muitas  mais  tintas ,  que  a  bo- 
la e  os  discos ,  e  presentava  o  mais  bello  espec- 
tro, que  se  pode  imaginar. 

54  Com  a  luz  tingida  das  quatro  cores  re- 
feridas ,  tendo  passado  pelas  objectivas  coloridas; 


[ « ] 

e  com  a  luz  achromatica,  tendo  passado  pelas 
objectivas  brancas ,  fiz  huma  infinidade  de  expe- 
riencias, combinando  a  luz  e  as  cores  em  todos 
os  modos  possiveis ;  mas  as  que  me  pareceráo  mais 
dignas  de  memoria  ,  sao  as  que  se  acháo  figuradas 
na  taboa  junta.  Os  pequeños  circuios  superiores  de 
cada  figura  ,  representáo  as  bocas  dos  tubos  dentro 
da  cámara  escura,  guarnecidas  com  as  objectivas 
achromaticas  (chamo  assim  as  brancas)  ,  ou  colori- 
das :  os  circuios  maiores  e  inferiores ,  representáo  os 
resultados  das  combinacoens  das  cores ,  e  da  luz,  so- 
bre  o  cartáo  :  as  linhas ,  que  unem  huns  circuios  a 
os  outros ,  representáo  os  rayos  de  luz  achromatica, 
e  colorida :  e  o  disco ,  que  se  acha  entre  huns  e  ou- 
tros circuios ,  representa  os  corpos  interpostos ,  e 
particularmente  a  bola  de  pao  ,  ou  o  disco  de  fo- 
lha  de  lata.  Eis  aqui  as  experiencias,  que  sendo 
repetidas  muitas  vezes  por  todo  o  mez  de  sep- 
tembro ,  desde  as  nove  horas  da  manhan ,  ate  o 
meio  dia ,  e  em  tempo  mui  claro ,  deráo  sempre 
os  mesmos  resultados. 


EXPERIENCIA  I, 

FIGURA  I. 

5  5  Puz  em  A ,  huma  objectiva  achromatlca; 
e  fazendo-lhe  cahir  directamente  a  luz  do  sol, 
o  que  se  deve  fazer  em  todas  as  experiencias, 
resultou  no  cartáo  huma  luz  clara  sem  cor  al- 
guma  :  e  o  corp  X ,  deu  sobre  o  mesmo  cartáo  o 
disco  Z ,  mui  escuro ,  e  que  parecía  pintado  de 
negro. 

EXPERIENCIA  IL 

FIGURA  2, 

56  Puz  em  A  ,  e  B,  duas  objectivas  brancas, 
que  deráo  no  cartáo  huma  luz  mui  clara  sem 
cor  alguma  :  e  o  corpo  X ,  deu  sobre  o  mesmo 
cartáo  os  circuios  Y ,  Z ,  hum  mais  escuro  que 
outro  ,  e  que  pareciáo  lavados  com  tinta  de  chi- 
na ,  e  hum  quasi  nada  de  carmim. 


[  *3  ] 

57  Como  da  combinacáo  da  luz  com  a  luz, 
nao  resultava  cor  alguma  clara  e  distincta  ;  passei 
a  combinar  a  luz  com  as  cores. 

EXPERIENCIA  IiL 

FIGURA  3. 

5  8  Puz  em  A ,  huma  objecti va  vermelha  ,  e 
em  B ,  huma  branca ;  do  que  resultou  no  cartáo 
huma  luz  clara ,  com  algum  reflexo  vermelho: 
e  o  corpo  X  ,  deu  em  Y ,  a  cor  vermelha  ;  e  em 
Z,  a  verde. 

EXPERIENCIA  IIIL 

FIGURA  4. 

5  9  Puz  em  A ,  huma  objecti  va  verde  ,  e  em 
B  ,  huma  achromatica  ;  o  que  deu  sobre  o  cartáo 
huma  luz  clara ,  apenas  tingida  de  verde  :  e  o 
corpo  X  ,  deu  em  Y  ,  a  cor  verde  j  e  em  Z,  a 

VERMELHA. 


C  >4] 


EXPERIENCIA  V. 

FIGURA  J. 

60  Puz  em  A  ,  huma  objectiva  vermelha, 
e  em  B  ,  huma  verde  ;  e  se  formou  no  cartáo  hu- 
ma luz  escurecida  sem  cor  alguma  :  e  do  corpo 
X  ,  resultou  em  Y  ,  a  cor  vermelha  :  e  em  Z, 

a  VERDE. 

61  Como  da  combinacáo  da  cor  vermelha 
com  a  luz ,  resultou  a  cor  verde  ,  e  da  combi- 
nacáo da  cor  verde  com  a  luz,  resultou  a  cor 
vermelha  :  e  como  tambem  da  combinacáo  do 
vermelho  ,  e  verde  ,  resultou  o  mesmo  ver- 
melho  ,  e  verde  ;  passei  a  combinar  com  a  luz 
estas  duas  cores. 


E  *5  ] 


EXPERIENCIA  VI. 

FIGURA  6. 

62  Puz  em  A,  huma  objectiva  vermelha  ,  em 
B ,  huma  verde  ,  e  em  C  huma  branca ;  o  que 
deu  no  cartáo  huma  luz  clara  sem  cor  alguma: 
e  do  corpo  X ,  resultou  a  cor  vermelha  em  Di 
a  azul  em  E ;  e  a  amarella  em  F. 

EXPERIENCIA  VIL 

FIGURA  7. 

63  Deixei  ficar  em  A,  B,  C,  as  mesmas  objecti 

vas  da  Experiencia  VI.  e  avizinhei  mais  a  o  cartáo 

o  corpo  X  ,  o  que  deu  a  Figura  DGEMFI, 

que  á  roda  do  triangulo  spherico  HLN  ,  deu 

as  seguintes  cores :  Em  DGHI ,  o  vermelho; 

emIHL  ,  a  cor  de  laranja  ;  em  ILMF ,  o  amarello; 

em  LMN,  o  verde;  em  GEMN,  o  azul;  em  HGN, 

a  cor  de  violeta  ;  e  em  LHN  a  cor  negra ,  ou  huma 

d  2 


[  *6  ] 

sombra  muí  escura  :  o  que  dava  a  roda  do  mesmo 
triangulo  LHN  ,  as  cores  prismáticas  vermelho, 
cor  de  laranja ,  amarello  ,  verde  ,  azul  ,  e  cor  de 
violeta. 

EXPERIENCIA  VIII. 

FIGURA  8. 

64  Situei  quatro  tubos  verticalmente  ,  e  puz 
em  A  ,  huma  objectiva  verde  ;  em  B ,  huma  ver- 
melha  ;  em  C,  huma  branca;  e  em  D,  huma  ver- 
de :  o  que  me  deu  a  Figura  EFGHIL  ,  que 
contém  as  mesmas  cores  da  Experiencia  VII.  mas 
seguidas  como  as  do  prisma.  Para  ter  esta  figura 
em  ordem  inversa ,  como  a  dá  o  Prisma  quando  se 
invertem  os  ángulos ,  basta  mudar  a  objectiva  B, 
para  C  ;  e  a  objectiva  C  ,  para  B. 

65  Como  da  Experiencia  VI  ,  VII  e  VIII, 
me  resultaráo  a  cor  amarella  ,  a  de  laranja ,  a  azul, 
e  a  de  violeta ,  prossegui  ñas  Experiencias  com 
estas  novas  cores. 


[>7] 


EXPERIENCIA  VIIIL 

FIGURA  9. 

66  Puz  em  A  ,  huma  objectiva  de  cor  de  la- 
ranja  ,  e  em  B  huma  achromatica ;  o  que  deu  no 
cartáo  huma  luz  clara  com  alguma  tinta  cor  de 
laranja :  e  situando  o  corpo  X ,  como  na  expe- 
riencia primeira  ,  resultou  em  Y ,  a  cor  de  laranja, 
e  em  Z ,  a  azul. 

EXPERIENCIA  X. 

FIGURA  10. 

67  Puz  em  A ,  huma  objectiva  azul ,  e  em 
B ,  huma  achromatica  ;  o  que  deu  no  cartáo  hu- 
ma luz  clara  com  alguma  tinta  azul :  e  do  cor- 
po X,  resultou  em  Y,  a  cor  azul;  e  em  Z ,  a  ama- 
relia. 


[  >8  3 


EXPERIENCIA  XI. 

FIGURA  II. 

68  PuzemA,  huma  objectiva  amarella,  e 
em  B,  huma  branca  ;  o  que  deu  no  cartáo  hu- 
ma luz  clara ,  apenas  tingida  de  amarello  :  e  do 
corpo  X ,  resultou  em  Y  ,  a  cor  amarella ;  e  em 
Z  ,  a  cor  de  violeta. 

EXPERIENCIA  XII. 

FIGURA  12. 

09  Puz  em  A  ,  huma  objectiva  cor  de  viole- 
ta ,  e  em  B,  huma  achromatica  ;  o  que  deu  no  car- 
táo huma  luz  sem  cor  determinada:  e  do  cor- 
po X  ,  resultou  a  cor  de  violeta  em  Y ,  e  a  cor 
verde  em  Z.  E  como  da  combinacio  da  cor 
verde  com  a  luz  ,  Experiencia  IIII.  resultou  a 
cor  vermelha  ,  donde  se  principiou  na  Expe- 
riencia III.  dei  por  acabada  a  minha  indagacáo, 


[  *9] 

tendo  achado  por  ella  :  Que  do  vermelho  ,  e 
verde  se  formáo  todas  as  cores  características ,  ou 
que  positivamente  se  differencao  entre  si. 

70  Ñas  muitas  experiencias  que  fiz  para  ob- 
tér  estes  claros  resultados  observei :  I.  Que  tres, 
ou  quatro  objectivas  achromaticas  ,  produziáo  o 
mesmo  effeito  que  duas  :  II.  Que  duas  objecti- 
vas vermelhas  ,  ou  verdes  ,  nao  produziáo  re- 
sultado algum  claro ,  mas  sim  huma  sombra  es- 
cura ,  sem  cor  determinada  ;  e  que  o  mesmo  acon- 
tecía com  tres,  ou  quatro  objectivas  destas  mesmas 
cores: III. Que  a  combinacáo  do  vermelho  e  ver- 
de ,  com  as  cores  de  laranja,  amarello  ,  azul ,  vio- 
leta ;  e  a  de  todas  estas  cores  com  a  luz  achromati- 
ca  ,  (  chamo  assim  a  luz  natural )  náo  daváo  resul- 
tado algum  essencialmente  diíferente  dos  que  pro- 
duzem  so  o  vermelho,  e  verde,  combinados  com 
a  luz  :  IIII.  Em  fim  que  as  cores ,  e  os  reflexos ,  pa- 
ra serem  bem  visiveis  na  cámara  escura ,  requerem 
huma  luz  mediana  ,  a  qual  se  obtem  no  acto  das 
experiencias ,  fazendo  cahir  a  luz  do  sol  em  to- 
da a  objectiva  branca ,  ou  em  huma  maior  ,  ou 


[3o] 

menor  parte  della :  o  que  se  regulará  segundo  a 
escuridade  da  cámara  ,  e  a  intensidade  das  objecti- 
vas  coloridas. 

71  De  todas  estas  experiencias  ,  e  observa- 
se oens  ,  se  vé  claramente  :  I.  Que  o  vermelho, 
e  verde  sáo  as  cores  que  sómente  se  pódem  cha- 
mar originarias ,  e  primitivas  ;  porque  se  formáo 
reciprocamente  huma  da  outra  ,  e  porque  dellas, 
e  da  luz  achromatica,  se  formáo  mediata  ,  ou  im- 
mediatamente ,  todas  as  outras  cores :  II.  Que  o 
amarello  e  o  azul ,  so  se  pódem  chamar  cores  secun- 
darias ,  ou  derivadas ;  porque  huma ,  e  outra  se 
formáo  da  combinacáo  do  vermelho  e  verde  com 
a  luz  :  III.  Que  a  cor  de  laranja  ,  a  de  violeta ,  o 
branco ,  e  o  negro ,  so  pódem  ser  tidas  por  cores  de 
terceira  ordem,  ou  compostas ;  porque  resultáo  da 
mistura  do  vermelho  ,  verde  ,  azul ,  e  amarello, 
em  justas ,  e  determinadas  proporcoens. 

72  Todas  as  outras  cores ,  que  se  vem  na 
Natureza  ,  sao  meras  tintas  ,  modificacoens  ,  ou 
reproduccoens  das  cores  primitivas ,  derivadas ,  ou 


C  31  ] 

compostas ,  e  se  reduzem  necessarlamente  a  qual- 
quer  dellas. 


73  Formando-se  por  estas  experiencias  to- 
das as  cores  imaginaveis,  so  com  a  mistura  da 
luz  achromatica  ,  e  da  luz  tingida  de  verme - 
lho  e  verde  ,  poder-se-hia  provar  com  a  maior 
evidencia  :  I.  Que  a  luz  pura  ,  he  so  composta 
de  rayos  achromaticos ,  vermelhos  e  verdes; 
porque  por  meio  da  refraccao  ,  exhibe  os  mesmos 
phenomenos  destas  experiencias.  II.  Que  as  cores 
prismáticas ;  as  das  sombras  coloridas  ;  as  acciden- 
taes ,  e  as  de  todos  os  corpos  da  natureza ,  se 
formáo  todas  do  mesmo  modo  ;  isto  he  por  hu- 
ma mechanica  mistura  de  principios  achromaticos, 
vermelhos  ,  e  verdes  ,  em  justas  e  determi* 
nadas  proporcoens. 

74  Taes  sao  as  novas  e  curiosas  experien- 
cias ,  feitas  com  a  luz  pura ,  ou  tingida  de  di- 
versas cores ,  tendo  passado  por  meios  achromati- 
cos ,  ou  diversamente  coloridos ;  e  taes  sao  as  in- 
duc^oens  que  naturalmente  se  seguem  das  mes- 

E 


[3*3 

mas  experiencias.  De  humas ,  e  outras  náo  faco 
por  ora  a  menor  applicacio  ,  nem  ás  minhas  pri- 
meiras  hipótesis  sobre  as  cores ,  nem  ás  dos  gran- 
des philosophos  ,  que  táo  seriamente  se  occupa- 
ráo  deste  agradavel  ,  e  interesantissimo  objecto. 
Reservo  para  hum  tempo  mais  desoccupado  ,  este 
divertido  entretenimento  ;  se  entretanto  algum 
hábil  indagador  da  natureza  náo  emprender  táo 
delicado  trabalho  ,  levado  da  sua  amenidade ,  e 
da  grande  luz  que  elle  pode  trazer  ,  náo  so  ás  disci- 
plinas naturaes ,  mas  a  outras  muitas  sciencias  e 
artes. 

F  I  M. 

AVJSO  TIPOGRAPHICO. 

A  impressao  desta  memoria  sobre  a  composicao  natural  das 
cores  ,  de  diogo  de  carvalho  e  sampayo  ,  Cavalheiro  da  Ordem 
de  Malta  ,  Socio  da  Real  Academia  das  Sciencias  de  Lisboa ,  se  con- 
cluid a  14  de  outubro  de  1791.  Imprimiráo-se  sómente  duzentos 

exemplares. 


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